“Acompanho o pensamento dos neodocumentalistas”. Confira a entrevista com Gustavo Saldanha

O Incunábulos inaugura a coluna “Entrevistas” conversando com Gustavo Saldanha, considerado um dos grandes talentos da Biblioteconomia brasileira. Pesquisador e professor da UNIRIO, ele fala de sua formação, influências e atuação do profissional bibliotecário.

Gustavo Silva Saldanha é pesquisador adjunto do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT/MCTI) e membro permanente do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, realizado em convênio entre o IBICT e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É também professor adjunto da Escola de Biblioteconomia da UNIRIO e membro permanente do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia.

É doutor em Ciência da Informação pelo IBICT-UFRJ e mestre em Ciência da Informação pela UFMG.  Possui especialização em Filosofia Medieval pela Faculdade São Bento do Rio de Janeiro. Suas mais recentes produções foram os artigos “Sobre a bibliologia entre Peignot, Otlet e Estivals: vertentes de um longo discurso ‘metaepistemológico’ da organização dos saberes”; “A posição da Bibliografia na epistemologia de Peignot no Setecentos” e “The Philosophy of Language and Knowledge Organization in the 1930s: Pragmatics of Wittgenstein and Ranganathan”.

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O professor e pesquisador Gustavo Saldanha fala sobre sua história na Biblioteconomia (Foto: Arquivo pessoal)

Incunábulos – Fale um pouco sobre sua trajetória na Biblioteconomia.

Gustavo Saldanha – Livros, leitura e leitores. Talvez estas três palavras expliquem os motivos pela minha predileção pela Biblioteconomia. Gosto de ter livros, gosto de ler livros, gosto de conversar com leitores. E isto veio da infância. Mas é inútil buscar uma só razão. E, para mim, desde o começo, o motivo pelo início de minha história na Biblioteconomia tinha uma causa arquitetônica.

Minha mãe desenhou nossa casa, em Divinópolis, Minas Gerais, com uma proposta de entrada que nos obrigava a abrir a porta principal diante de uma estante de alvenaria de 5 ou 6 prateleiras, em arco superior. Está lá até hoje. Esta foi minha primeira biblioteca. Nunca terminei de ler os livros que ali estavam, que ali estão. Sei que esta imagem me marcou profundamente. Era a única casa com biblioteca do bairro. E quando veio o vestibular, fiquei entre Filosofia e Biblioteconomia.

A Filosofia me dava a possibilidade de estudar um curso fundado por franciscanos em Divinópolis, uma espécie de sonho subversivo para o padrão de meus amigos à época, desejosos de estudar Medicina, Engenharia ou Direito. A Biblioteconomia me dava a possibilidade de estudar na UFMG, mudar para uma cidade grande e mergulhar em um mundo totalmente desconhecido… eu não sabia o que encontraria, a não ser a crença de contato com a palavra “biblioteca” que “cabia” no termo técnico “biblioteconomia”. Assim cheguei ao curso da Escola de Biblioteconomia da UFMG em 2001, que havia no ano anterior alterado seu nome para Escola de Ciência da Informação. Eu não sabia, mas esta mudança é o resumo mais completo de minha trajetória no campo biblioteconômico-informacional.

Com grandes professores no curso, como Alcenir Soares, Cida Moura, Madalena Naves, Regina Marteleto, apaixonei-me literalmente pelas questões sociais do pensamento biblioteconômico-informacional e pela indexação, a menina dos meus olhos na graduação. Realizei estágio na Fundação João Pinheiro, sob supervisão da bibliotecária Joana D’Arc e ali resolvi, definitivamente, dedicar-me à Biblioteconomia e, mais especificamente, à indexação. Ao longo da graduação tive a oportunidade ainda de atuar como bolsista de extensão, sob a orientação de Alcenir Soares dos Reis e Rosemary Tofani, do projeto voltado para a conscientização da conservação de artefatos bibliográficos no contexto do Laboratório de Preservação de Acervos. Fui também voluntário das pesquisas realizadas por Regina Marteleto nos diálogos entre informação, comunicação e cultura. Sob orientação de Maria Aparecida Moura, concluí meu curso de bacharelado com um trabalho resultante da elaboração de um micro-tesauro de ciências criminais, para ser aplicado na Fundação João Pinheiro.

No mesmo semestre da conclusão do curso de graduação, desenvolvi um pré-projeto de mestrado orientado para as questões teóricas da representação temática. Na véspera da inscrição para o processo seletivo na UFMG, deparei-me novamente com a “placa” da entrada da Escola de Ciência da Informação e descobri que a indexação havia ficado isolada em meu pré-projeto. O que eu estava realmente propondo estudar era a epistemologia de um campo, e suas transformações históricas. Após adentrar o mestrado, as incertezas profissionais se multiplicaram e prestei concurso para o Ministério da Cultura, para o cargo de bibliotecário da Fundação Biblioteca Nacional. Este foi o motivo de minha mudança para o Rio de Janeiro.

Ainda com o mestrado em curso, após concluir as disciplinas, deixo Belo Horizonte no final do ano de 2006. Em 2008, retorno para defender minha dissertação “Viagem aos becos e travessas da tradição pragmática da Ciência da Informação: uma leitura em diálogo com Wittgenstein”, sob orientação de Maria Aparecida Moura. No trabalho, buscava questionar discursos epistemológico-históricos do campo, demonstrando uma “longa duração” da experiência de seu pensamento, anterior ao contexto da Segunda Guerra Mundial e não exclusivamente dependente do pensamento anglófono. Na Fundação Biblioteca Nacional, atuei durante três anos como gestor, no cargo de supervisor substituto da Biblioteca Euclides da Cunha. No mesmo ano de conclusão da dissertação, é aberta a seleção para professor assistente da Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), para a disciplina Introdução à Biblioteconomia, atualmente Fundamentos da Biblioteconomia. Adentro a instituição, onde até hoje me encontro, como professor, no regime de trabalho 20h, atuando com as disciplinas teóricas. No mesmo período, é aberta outra seleção, para o curso de doutorado em Ciência da Informação do convênio Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) junto à UFRJ.

Candidato-me e inicio meu doutorado em março de 2009. No ano de 2010, participo de outra experiência profissional: candidato-me ao concurso do IBGE, para o cargo de bibliotecário, instituição onde atuo, após deixar a Fundação Biblioteca Nacional, até 2012. Neste ano, concluo, no mês de agosto, meu doutorado, com a tese, orientada por Maria Nélida González de Gómez, “Uma filosofia da Ciência da Informação: organização dos saberes, linguagem e transgramáticas”. Na reflexão proposta, busco discutir a linguagem como pressuposto do pensamento biblioteconômico-informacional, principalmente a partir da historicidade das práticas retóricas, filológicas e bibliológicas. No mesmo ano, o IBICT abre seleção para o cargo de pesquisador adjunto. Candidato-me à seleção e inicio minha trajetória no Instituto em fevereiro de 2013, onde desenvolvo, junto da atuação na UNIRIO, pesquisas sobre os fundamentos filosóficos, teóricos e metodológicos da Biblioteconomia & Ciência da Informação.

Você se considera um exemplo de bibliotecário erudito?

Não, pois a palavra erudição mudou muito de significado ao longo do tempo e seu uso tem alguns momentos definitivos, como o Renascimento Italiano. Ali, erudição comporta uma vastidão de saberes, de fundo bibliográfico, como também empiricista. Acredito que ela raramente se aplicaria, na atualidade, salvo casos muito específicos. Em certa medida, o “intelectual” substitui o “erudito”, estando este próximo das generalidades críticas, e aquele das críticas especializadas. Também o uso da palavra “bibliotecário”, hoje, para mim, merece ressalvas.

Atuei “em bibliotecas” como profissional ao longo de 6 anos. Desde 2012, não estou atuando dentro de uma biblioteca. Mais do que isto, não me vejo como “bibliotecário erudito”, expressão esta, também com usos bastante claros na história, presentes, por exemplo, em Alexandria, nos fins da Patrística, no Império Carolíngio, no Renascimento Cultural e no citado Renascimento Italiano, além da “Modernidade clássica” (séculos XVII e XVIII). Vejo-me como um estudioso das ideias e das práticas de um campo vivo, e com vasto desenvolvimento histórico, reconhecido, ao longo do tempo, por nomenclaturas como Bibliologia, Bibliografia, Biblioteconomia, Documentação, Ciência da Informação, dentre outras variações.

Comente sobre seus teóricos favoritos na área…

Aquilo que mais me impressionou no pensamento biblioteconômico-informacional e continua me marcando profundamente é a tese de Solange Puntel Mostafa, “Epistemologia da Biblioteconomia”, de 1985. Sua leitura foi de um impacto imenso, talvez pela ânsia de ler algo combativo para um período ainda nebuloso de definição do campo no Brasil, talvez por não encontrar nada parecido posteriormente. Ainda, para mim, é o grande tratado brasileiro de nosso campo, infelizmente pouquíssimo lido. Outro fato bibliográfico que me marcou muito foi o diálogo entre Nélida González de Gómez e Miguel Ángel Rendón Rojas, em 1996, na Revista Transinformação, discutindo a “pragmática” como uma filosofia para nossa epistemologia. Diria que este trio, Solange, Nélida, Miguel, com seus questionamentos filosóficos e suas tentativas de compreender um campo em plena ebulição institucional, teórica, profissional, resume o conjunto das primeiras grandes inquietações epistemológicas de minha trajetória crítica. A eles aproximo, no contexto específico de minha produção até o momento, Rafael Capurro, principalmente por seus trabalhos desenvolvidos entre 1978 e 1999. Ainda hoje, o autor, junto dos três primeiros, compõe minha base teórica mais comum, para o âmbito epistemológico-histórico. Outra autora que me marcou profundamente, pela direção de estudos, a ampla gama de diálogos e pela parceria de produção ao longo do tempo, foi Regina Marteleto, com quem pude, desde a graduação, mergulhar, aprender e aperfeiçoar minha experiência com a pesquisa.

Aproximei-me da pesquisadora em razão de seus estudos focados da relação entre informação e o mundo social amplo, estruturado pela visão de críticos sociais. Destaco o diálogo, também, com Lena Vânia Ribeiro Pinheiro, no IBICT, fundamental para meus questionamentos epistemológico-históricos, além da pesquisa em organização do conhecimento de Rosali Fernandez, também do IBICT. No plano mais amplo, a lista é vasta.

Recentemente tentei, junto aos orientandos de mestrado e doutorado do IBICT e da UNIRIO, construir uma “seleta bibliográfica” comum dos artigos mais importantes que, hoje, eu relacionaria. Foi dificílimo chegar à definição de 100 itens. Venho acompanhando o pensamento dos neodocumentalistas, da “escola lationoamericana” e de autores brasileiros como Giulia Crippa, André Araújo, José Augusto Guimarães, Marco Antônio Almeida e Cristina Ortega. Mas existem grandes estudiosos dentro e fora do país. Em termos históricos, para ficar em três nomes de fundamental centralidade para minhas reflexões, estão Shyali R. Ranganathan, Paul Otlet e Gabriel Peignot. Mas fico por aqui, pois caso contrário, a resposta vira uma tese.

Recentemente a mídia tem veiculado bons exemplos de bibliotecários que alcançam sucesso e destaque em seus projetos. Por anos a figura deste profissional foi caricaturada. Onde pecamos?

A caricatura permanecerá. Provavelmente ela é e será uma das nossas salvações. O caricaturado vive. Quem não a tem, não existe. Não sou de “brincar” ou de “assumir” intensamente as caricaturas para fins “afirmativos”. Mas, sem dúvida, este é o caminho. E já o fiz quando necessário, pois já vi o seu uso inadequado em um fórum completamente dedicado a um debate sério sobre um dado problema social que podia ser solucionado por técnicas e teorias biblioteconômicas. Todas as áreas as quais conheço possuem seu repertório de estigmas e preconceitos.

Somos sócio-seres e isto nos coloca em um jogo de grandes conflitos entre grupos sociais, profissionais, políticos, religiosos. Os limites morais de uma pretensa depreciação do ofício do outro devem ser discutidos, antes de julgados. E o riso é e sempre será uma forma de tolerar. A caricatura nasce porque o caricaturado existe. Por isto não vejo “pecado”, não nos vejo “pecando” ontem ou hoje. E a mídia mostra aquilo que se paga.

Vejo o que sabemos que somos: um campo teórico-profissional enorme, heterogêneo e repleto de idiossincrasias sociais, atuando nas mais diversas instituições e regimes de trabalho, repleto de interesses pessoais e coletivos. Existem bibliotecários que querem ser ricos; existem bibliotecários que querem reter obras para seu deleite bibliófilo; existem bibliotecários que acreditam que irão mudar o mundo. E destes dramas padecem todas as áreas. Então, estamos prontos para entrar em quaisquer diálogos: aqueles que listam todos os males que assolam nossa seara; aqueles que listam todas as grandes obras sócio-técnicas desenvolvidas a partir de Alexandria, para ter um marco histórico, até 2016, e que continuarão sendo realizadas pelas gerações de bibliotecários que nos substituírem. Por exemplo, podemos ler Edson Nery da Fonseca em sua crítica à passividade do campo, ou seja, seu devir-Briet. Ou podemos ler seu maravilhoso “Problemas brasileiros de documentação”, demonstrando o quanto, apesar dos percalços, crescemos ao longo de nosso processo histórico. Hoje tenho me inserido cada vez mais, intensamente, nos fóruns de grandes ideias e perspectivas do campo, ou seja, estou cada mais apto a entrar apenas no segundo grupo de diálogos. Mas jamais deixarei de concordar com críticas que apontam para os contextos onde, de fato, multiplicam-se nossos equívocos e prolongam-se nossos atrasos.

Estamos no caminho certo ou a Biblioteconomia brasileira é retrógrada?

Diante das palavras anteriores, não tenho dúvida de que estamos em um grande caminho. Não somos os heróis nem os vilões da memória material. Não somos os culpados pela destruição em massa de dados a qual vivenciamos. Não somos os responsáveis gerais pelo acesso mundial aos produtos do pensamento humano. Mas somos politicamente obrigados, impelidos pelo processo histórico, a participar deste grande fórum da cultura e da sociedade do qual nosso campo faz parte, integra, e não detém, e o qual depende, também, nossa sabedoria milenar. Uma breve lista dos feitos de grandes, lê-se “midiatizados”, e de pequenos bibliotecários, principalmente de pequenas e grandes, lê-se “midiatizadas”, bibliotecárias, no Brasil e fora dele, demonstra nossa intensa participação política não apenas no hoje, mas desde a Antiguidade, em momentos centrais do desenvolvimento social.

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